Sucessão

Enquanto a maioria das ordens iniciáticas trabalha em um sistema de grupos e lojas, onde os membros se reúnem em um templo e trabalham em conjunto, na A∴A∴ o trabalho é individual. Você trabalha sozinho com a eventual orientação do seu instrutor, que age como um conselheiro, e não como um mestre1.

Relação instrutor-estudante

O membro da A∴A∴ estuda sob a orientação de um instrutor, a única pessoa com quem ele tem contato na Ordem 2. Essa pessoa é responsável por validar o progresso do estudante e transmitir instruções e chaves que vêm da tradição oral. Caso o estudante se torne qualificado para também instruir, ele terá contato com as pessoas que vier a orientar na Ordem.

O instrutor da A∴A∴ deve estar pelo menos um grau à frente do estudante, seguindo um dos lemas da Ordem: “Na A∴A∴ cego não guia cego”. Desta forma, um membro do grau de Probacionista 0=0 deve ser instruído por alguém que seja pelo menos do grau de Neófito 1=10; um Neófito 1=10 deve ser instruído por alguém que seja pelo menos um Zelator 2=9; e assim por diante.

Ao alcançar o grau de Adeptus Minor 5=6, o membro deverá alcançar a experiência do Conhecimento e Conversação de seu Santo Anjo Guardião, isto é, o contato com seu Verdadeiro Instrutor. A partir dali, seu “Anjo o levará ao ápice da Ordem da R.C. e o preparará para enfrentar o indescritível terror do Abismo que fica entre a Humanidade e a Divindade”, isto é, passar pelos graus da Segunda Ordem e atingir o 8=3.

O que são linhagens?

Esta palavra pode ser empregada para definir dois conceitos relacionados.

Primeiramente, linhagem pode ser a cadeia de sucessão de instrutor-estudante, que parte do estudante, passa por seu instrutor, pelo instrutor do instrutor e assim por diante até um dos fundadores da Ordem.

Por exemplo, Euclydes Lacerda de Almeida foi recebido na Ordem por Marcelo Ramos Motta, que foi recebido por Karl Johannes Germer, que por sua vez foi recebido por Edward Alexander Crowley, co-fundador da A∴A∴. Então pode-se dizer que a linhagem de Euclydes é via Motta > Germer > Crowley3. Todo Neófito é potencialmente uma nova linhagem da A∴A∴.

Também usamos o termo linhagem para denotar os “claimant groups” (grupos reinvidicadores), o conjunto de pessoas que alegam ser legítimos membros da A∴A∴ e que operam abaixo de um dado membro sênior da Ordem, cujo instrutor já faleceu. Por exemplo, Frater אדני é instruído por Frater 939, que foi instruído por Motta, e assim por diante. Ao se tornar um estudante de אדני, diz-se que você faz parte da linhagem de Frater 9394.

Linhagens vs. Comando Central

Quando foi fundada, a A∴A∴ possuía três cargos administrativos:

  • Cancellārius: o secretário, responsável pelos documentos e comunicações. Cargo originalmente ocupado pelo Capitão J. F. C. Fuller (Frater P.A.)
  • Imperātor: responsável pelo governo da Ordem. Cargo originalmente ocupado por Aleister Crowley (Frater O.S.V.)
  • Praemonstrātor: responsável pelas instruções. Cargo originalmente ocupado por George Cecil Jones (Frater D.D.S.)

Por volta de 1911, Frater P.A. e Frater D.D.S. se desligaram da A∴A∴, que ficou sob responsabilidade única de Aleister Crowley (Frater O.S.V.). Ao longo dos anos seguintes, diferentes pessoas ocuparam estes cargos, mas quando Crowley faleceu em 1947, ele deixou todas as suas posses, bem como o governo da A∴A∴ e da O.T.O., nas mãos de Karl Johannes Germer.

Embora com a devida autoridade, Karl Germer nunca se impôs como o líder de todos os membros remanescentes da A∴A∴. Ao invés disso, cada um dos membros sênior sobreviventes continuaram a cuidar de seus estudantes.

Com a morte de Germer, a situação se tornou mais complexa, porque ele não deixou um sucessor direto para comandar a A∴A∴. Alguns argumentam que Motta seria seu sucessor (the follower), porém mesmo se assumirmos que ele foi o herdeiro do comando da A∴A∴, seu testamento também nunca foi executado, e caímos na mesma situação anterior.

Até hoje nenhum grupo foi reconhecido por todas as linhagens sobreviventes como sendo a tríade governante da A∴A∴ como um todo — embora um destes grupos tente. O que ocorre na prática é que cada linhagem possui sua própria tríade governante, ou uma pessoa que centraliza estas funções — geralmente o membro sênior.

Autenticidade da sucessão

Com tantas discussões conflitantes sobre autenticidade, é difícil determinar se um grupo possui uma sucessão da A∴A∴ autêntica. Estes são alguns parâmetros que poderíamos utilizar para determinar se uma linhagem é autêntica:

  • Partir de Aleister Crowley. Ou seja, o elo mais antigo desta corrente de sucessão deve ser este co-fundador da Ordem, já que foi o único que permaneceu ativo.
  • Graus reconhecidos. Cada membro da corrente deve ter seu grau reconhecido pelo Instrutor. Não existe auto-reconhecimento ou avanço por conta própria.
  • O membro sênior vivo deve ser pelo menos um 5=6. A partir deste ponto um membro pode trabalhar com seu próprio Santo Anjo Guardião, porém antes disso é preciso haver alguém capacitado para conduzi-lo até lá.
  • Não deve haver nenhum “salto” de grau. Todos os antecessores devem ter passando por cada grau intermediário, sucessivamente: 0=0, 1=10, 2=9, 3=8, 4=7, D. L. e 5=6.

Embora algumas reinvidicações de sucessão pareçam mais válidas do que outras, não existe nenhuma linhagem que atenda a todos estes requisitos minunciosamente.

Conclusão

Uma vez que a A∴A∴ não é uma ordem mundana como a O.T.O. e a Golden Dawn, regras diferentes se aplicam, e papeis e reconhecimento oficial fogem do ponto.

É importante que os Aspirantes à A∴A∴ façam seu trabalho de pesquisa sobre a linhagem à qual pretendem se juntar, visto que esse é um assunto delicado com várias informações confusas e contraditórias.


Referências

  1. O modelo é semelhante à tradição guru-śiṣya, no entanto, o “guru” não é recompensado e nem exaltado, ele serve apenas como um facilitador. Seu “guru” é o “śiṣya” de outro guru, que por sua vez é o śiṣya de um terceiro guru, e assim sucessivamente, até chegar ao fundador da Ordem, a origem da corrente. 

  2. Isso na teoria, pois como muitos membros da A∴A∴ também são membros em outras ordens iniciáticas, eventualmente eles acabam se identificando, no entanto jamais devem trabalhar em conjunto. 

  3. Na tradição guru-śiṣya isso é chamado de Paramparā

  4. Na tradição guru-śiṣya isso é chamado de Sampradāya